sexta-feira, 19 de junho de 2015

poema de chico xavier


pois eu estava mergulhada
no estômago de animais
que nos mastigaram

bocas sujas, planeta azul
das trevas, as dúvidas, espíritos
rebeldes, filmes de horror que assisti.

memória, labirinto hipnótico.
memória, minotauro-tuareg.
memória, lábia do olho cego.

insetos e anfíbios: tudo fica
registrado num diário, num delírio.

milhares de outros seres
despertos com música, sementes
depositadas na roda-gigante.

lesões, comunidade.
___________________________
- texto escrito a partir de arranjos
da suposta carta psicografada de cássia eller
ouro dentro da escuridão
se a gente morre por aqui
não encontrarão nem a alma

as palavras perdem seu peso
na figura do aviador


e a bicicleta ultrapassa
o milagre, vacas diminutas
de olhares sonolentos

e foi só por isso que vieram matar
e foi só por isso que disseram no meio do mato

se algo estiver escondido lá na sujeira do coração
e você o desenterrar, é seu também, é você.
deita aqui na lama
comigo, teu nome
não me cansa, pés
quase sempre pensam
mais que a cabeça
e merecem cafunés


 deita aqui na lama
está um dia tão bonito:
um jambo, sombra e sapo
e eu já nem sei do grito
para anjos e ar-condicionado

deita aqui na lama, cristo
não é um cachimbo
estamos definitivamente
dentro da deriva, o amor
é nu e multiplica a alegria
incontrolável do encontro

we're only for the honey, mel
do melhor, estamos nesta
pela conversa, não conversão
caos-pizzaria, você disse alimentando
os peixes que se multiplicavam
debaixo das barbas das profetas
indianas fãs de heavy metal & loucas
por noites de apneia & levitação
eu cuidava de fazer vitaminas
de abacates para cobrir a ferrugem
da coleção de alicates de vovô & derramar
doses cavalares de conhaque nos cactos,
nos cascos dos jabutis, nas costas
de nossa irmã anã massoterapeuta
vovó descascava manga com sua katana
iluminada pelo lado escuro da lua & nua
cuspia pregos nos sapatos coloridos
& enormes de seu amante cego

sexta-feira, 8 de maio de 2015

e então eles
dizem quando um ser
humano coça
a cabeça: está
pensando. eles dizem
quando outro animal
coça a cabeça: tem pulgas.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

tom zé do caixão

você, vocêê, todos vocêêês,
filhos da máquina, na entranha
gasolina e outras almas roubadas
na meia-noite de uma multinacional

jorge de lima da pérsia

a lua vem da ásia, gigante
panfletário do caos e você
me traz carregamentos de
laranjas sanguíneas. a sede
começa no cheiro da casca
que se espalha e impregna
meus dias, meus dedos e
a cachaça, minha carcaça.
o sol pesando nos ombros e eu já tinha tomado uns quatro copos de cerveja que murilo trouxe, uma cerva artesanal chamada "samurai cego". falei pra ele que a primeira coisa que me vinha a mente com esse lance de samurai era que eu não passava dois minutos jogando samurai shodown no playtime aqui perto de casa que aparecia um prego qualquer pra colocar contra e me tirar da máquina, com algumas malícias de galford, hanzo ou haohmaru. eu não sabia jogar muita coisa com nenhum deles e gostava do naipe do kyoshiro - lembrando dessa conversa dias depois eu notei pela primeira vez que o kyoshiro é um ator de kabuki. daí eu partia pra o arcade de real bout fatal fury e lá ninguém me incomodava, quem colocava contra zarpava por conta do taekwondo que aprendi com kim kaphwan. murilo, cortando a lombra, disse que está tudo integrado: o gari japonês que vive com uma real doll é primo da menina que se fantasia de sereia no interior de minas gerais. Eu ri com a associação. a memória é sempre uma chuva inesperada, tudo é pólvora e fogo, gatilho. murilo perguntou se eu já tinha lido proust. eu disse que não tinha lido nem o prost e não gostava do joguinho de super nitendo do nigel mansell. a idiotice é uma fruta muito doce. proust é um cara que escreveu sobre como o biscoito treloso nos faz lembrar os dias de surf em 1990, disparou murilo. fiquei sem saber o que responder e nessa hora caíram duas mangas no quintal, foi jah. comendo as mangas, acho que entendi a ideia do biscoito treloso. lembrei que dia desses tava tocando just like the wind, do tony garcia, na carrocinha do tio que vende caldo de cana e pão doce aqui na esquina. de repente, sem mais nem menos, eu era novamente um pirralho dançando como um robô desajeitado nas noites de rádio na varanda do térreo do prédio de alessandro pacovan, a rua logo ali. daí bateu saudade de entrar na fila da merenda da escola várias vezes, torcendo o rosto pra um lado e outro, pra baixo, mancando e feito o seu boneco "dis costa" para catar uns quatro ou cinco saquinhos de cilpinho de chocolate com pão doce.

sábado, 11 de abril de 2015

dizemos água e continuamos
com sede, o banho de chuva
ácida não lava nossa alma
mas expõe todos os ossos

 há um enigma cabisbaixo
surfando em nossas lágrimas
há um milagre moribundo
impregnando nosso suor

nossas salivas não salvam
os oceanos de merda e plástico
tartarugas morrem todos os dias
sufocadas no horror de nosso sangue

não há líquido amniótico suficiente
para proteger os nascimentos dos rios
e não adianta andar sobre as águas
ou então transformá-las em vinho

enquanto não renovamos a seiva
de nossa medula mergulhando
plenamente na lama e no lodo, diluindo
nosso egos nas águas subterrâneas

dizemos água e continuamos
uns animais cheios de esquiva
esquecendo nossa origem aquática
e uma ética molhada para estes dias
o menino jesus queria
ser bombeiro, disse
terezinha maria de jesus,
mãe do menino jesus.

foi baleado na porta de casa,
o menino eduardo de jesus ferreira,
lá no complexo do alemão.

foi a polícia: "houve um confronto
e um menor foi baleado".

fomos nós mesmos que crucificamos o menino jesus
bem antes dos trinta e três anos.

na tv, segue o feriadão da semana santa.
uns comem peixe, outros tomam cerveja.

e o menino jesus não voltará como bombeiro
para nos salvar deste incêndio.
quanto a isto, não há segredos:
meus dedos massageiam
teus pés e existem cafunés
para todos os tipos de cabelos.
e você sabe que
não há nada
que me acalma
mais que lamber
o chá de camomila
que derramo sobre
teus doces mamilos.

segunda-feira, 23 de março de 2015

vamos embora para bogotá
lá sou amigo dos três
garis que descansam
corpo e alma no balanço
ao contrário de vocês.
eu sou o gozo no osso
do teto da tua
boca
ele não tem dúvidas de que é o maior poeta brasileiro vivo. mas anda mesmo é com a cabeça nas enterradas do kobe bryant e quase chora quando as luzes da quadra de basquete de rua do interior de buenos aires, no interior de pernambuco, estão acesas à noite. isto acontece uma vez ao mês. o pai trabalha na feira da cidade, a mãe faz artesanato que um gringo atravessador compra barato e vende caro em berlim. dois metros e vinte centímetros. ele não duvida que é o maior poeta brasileiro vivo. e vive lembrando que poesia não salva ninguém, anda sempre de barro. e não desenrola nem uma bola, nem as luzes acesas durante o mês. mas ele continua escrevendo e tentando arremessos de três e ménage à trois.
verde é a cor do mofo e da corrupção.
deslizamos suavemente sobre
a superfície das águas
sem saber

que os motores do barco
irão parar de repente
e ficaremos
à deriva

por pouco tempo, é verdade.
peste, guerra, fome e morte
são cavalos rápidos

e estamos espalhando nosso necrochorume
pelos lençóis freáticos.

freaks fanáticos, aprendemos a gozar
entre os gases do efeito estufa
e os vapores do asfalto.

osso contra osso, ácido.

os mortos enterram os mortos
e as baratas e os javalis não sentirão nossa falta.

já não há fantasmas no sofá,
e do vinho não sobrou nem os copos
e eu não ouço mais minha vó cantar:

o planeta é uma planta y no plata.
afinal de contas, ser feliz pra quê? ela perguntou como quem atira um vaso chinês da dinastia ming contra a parede. eu olhava cada caquinho de porcelana, com suas pequenas flores azuis desfiguradas. a vida é o que é, um pouco de vento alivia a tristeza das samambaias, um pouco de água sempre é suficiente para fazer o filhote de leopardo que guardo no peito abrir um sorriso. as pequenas flores azuis, os caquinhos, começaram a se juntar quando uma ambulância passou na avenida rasgando o horizonte para socorrer corações atropelados. esqueci de dizer, estávamos pelados. as palavras caem no chão feito frutas. às vezes é possível encontrar uma manga madura no chão, sem grandes hematomas. mas na maior parte do tempo chegamos atrasados e as palavras apodrecem. frases ditas perto da caixa toráxica pesam mais que a respiração dos rinocerontes. em tudo que disse, ela permaneceu de olhos fechados. lindos olhos verdes dormindo debaixo das pálpebras do sonambulismo. como um geógrafo cego, tateei o dorso dela, as pernas, os poemas das omoplatas, as canções das orelhas e a tranquilidade dos dedos mindinhos dos pés. a imagem da felicidade é um guarda-chuva que esquecemos no ônibus que nos levou para longe de nós mesmos. ela abriu os olhos. eu já não precisava descobrir a tradução do termo sânscrito santosha. cometeremos erros melhores amanhã, eu disse.
um dia freak
um bom lugar pra tomar cerveja
e o pensamento lá em suncê
sem suncê nenhum auê
um dia resiste
toda fragilidade inside
e o pensamento lá em suncê
e tudo me convide
a poesia segue fluindo
numa velocidade animal
e o poema, aquele esquema,
pedra que levita no meio do rio.

 o tempo do poema é tartaruga
de cabeça para baixo.

este poema, por exemplo.
o tempo de vocês chegarem
nesta linha foi suficiente
para que eu tomasse
nove caipirinhas.
circe me disse:

tranquilo, nego.
cabeça de gelo.

fique frio,
fique freak.
o oceano é uma
cama larga: esta
canção é sobre
sangue sobre
tempo também

 nossos corpos
à deriva

vinho e cerveja,
estamos mortos
e jamais morreremos

os ossos dos nossos
dedos batucam a pele
das águas no ritmo
destas gotas de chuva

uma delícia, este vinho
uma delícia, esta cerveja

nossos corpos
à deriva

tiamat nos festeja

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

o tigre e william blake o golfinho
e dora ferreira da silva o urubu
e augusto dos anjos o corvo
e edgar allan poe o albatroz
e charles baudelaire a barata
e clarice lispector a lesma
e manoel de barros a abelha
e alice ruiz o sapo
e manuel bandeira o sapo liu-liu
e hilda hilst a rã
e matsuo bashô o cão
e alberto da cunha melo o cão
e joão cabral de melo neto o peixe
e adília lopes o cisne
e william butler yeats o pássaro
e alejandra pizarnik o pássaro
e charles bukowski o jaguar
e roberto piva o lobo
e virginia woolf o escorpião
e bruna surfistinha o puma
e hannah höch o urso
e cassiano ricardo o urso
e diane di prima o unicórnio
e audre lorde o leão
e michael mcclure o leão
e björk o gato
e maya deren o cavalo
e patti smith
o oceano é uma
cama larga: esta
canção é sobre
sangue sobre
tempo também

 nossos corpos
à deriva

vinho e cerveja,
estamos mortos
e jamais morreremos

os ossos dos nossos
dedos batucam a pele
das águas no ritmo
destas gotas de chuva

uma delícia, este vinho
uma delícia, esta cerveja

nossos corpos
à deriva

tiamat nos festeja

nos bolsos furados da nossa memória:

as pernas quebradas, um velhinho jogando
pôquer com os pombos, um pedaço de chão
coberto de lodo onde enfiamos nosso narizes
para fugir do cheiro do barulho dos prédios,
moscas sobrevoando a paz dos pratos sujos,
livros de receitas da avó de eddie vedder,
bagas, litros de suco de pitanga com pastel,
plantas carnívoras, carcaças de canários,
gols feitos durante a fuga das aulas de língua
portuguesa, noites de vinho & vômito, visões
de naves alienígenas transformadas em bolhas
de sabão, sabedoria da velhinha que vendia
amendoins e deliciosos caldinhos de sururu,
o peixe-beta que morreu na frente do espelho,
as bolas de gude roubadas e perdidas, mangas
com sal nos terrenos baldios, deus e sua solidão.

quando dentro
da gruta, o canto.

 quando dentro
da fruta, espanto.

quando dentro
da luta, o cancro.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

você recebe o poema pelas pernas
e então corre feito uma criança
picada por vespas amarelas

 você recebe o poema pelas unhas
e então descasca as camadas
antigas de tinta sobre as pupilas


você recebe o poema pelas pálpebras,
pelas nádegas, pelas sobrancelhas,
pelas narinas, pelas virilhas, medula

você recebe o poema pela testa,
mandíbulas, o poema fura tuas bochechas,
faz tremer as tuas coxas (como numa foda)

você recebe o poema e ele quebra tuas costelas
e coloca na tua garganta as vozes das capivaras
que não escaparam de nossa sede de sangue & carne

você recebe o poema: purple haze, bike, avatar:
o poema abre tua boca, o poema deita em tua língua.
e disse jesus:

é preciso ter o caos
dentro de si.

é preciso ter caô.

impreciso é o coice
se estamos todos
dentro do sim, do cio
docinho que tudo envolve.

*

e jesus tornou a dizer:

molhai os delírios do hipocampo.

sede íntimos do acaso
& seus arquivos de uivos.
era alma e lama:
achava a tesoura
enferrujada um tesouro.

 virou espécie de juiz
traficando banhos de língua
do leopardo e serviços
de acupuntura com besouro.
aqui no janga não discutimos
metafísica. estamos mais tranquilos,
estamos mais espertos.

providência, por exemplo.

providência é o apelido
do mago que sempre traz
pronto um fininho e o isqueiro.
minha vó nasceu na bulgária.
a bulgária não existe.
eu sou uma canção do nirvana.

 estas foram as únicas frases
que consegui ensinar ao aristóteles,
um papagaio que aparece todas as tardes
no quintal da casa de murilo mendes
como a chuva na cidade de belém.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

os méritos do cinismo

ridiculamente tímidos e prudentes, isto que somos.
quando aprenderemos novamente a cuspir
nos rostos dos proprietários da terra?

há uma virtude restauradora nos oceanos de saliva,
uma graça infinita na aventura enlouquecida da sinceridade.

contra a hipnose do infinito, contra os freios da hipocrisia
contra os bocejos da sabedoria de palestra.

escolhemos desfilar nossa solidão em praça pública,
desafiamos a claridade barriguda dos militares.

quem escuta as respostas do lodo para questões místicas?
quem escuta nossa zombaria e latidos enquanto compra
cervejas quentes feitas de milho transgênico por bolivianos cansados?

a tarefa do poeta é bater punheta para gozar na cara
dos doutrinadores da alma & do corpo, exibir
a completa amargura e lavar os ossos
de nossa condição despojada.

"quem me dera que bastasse também
esfregar a barriga para não ter mais fome",
disse o cão celestial depois de ejacular.

condomínio de enfermos, prisioneiros da certeza,
haverá uma chuva de equívocos e sairemos bêbados
carregados pelos pontapés do nojo que o tempo nutre
de nossa miséria, nossa farsa: um rosto repugnante
que insistimos em transformar em senhor das moscas.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria parado na frente de um rinoceronte
fumando um fininho californiano encontrado
entre sapatos abandonados e hare krishnas.

 não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria o dia inteiro enfiando álcool e gasolina
nos tanques de combustível dos carros currados
por motoristas sem imaginação, depois do polimento.

não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu ainda estaria trabalhando na televisão
ligando para delegacias à procura de prisões
e assassinatos interessantes para nossos abutres.

não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu permaneceria eternamente vendendo cópias
dos desenhos dos cavaleiros do zodíaco
para crianças cegas, anões e ninjas aposentados.
outra carta, fim de mundo
você moeu meu coração de vidro,
eu saí de campo,
estou velho

 e já te disse que tudo
que eu consegui no garimpo
foi um grampo
de cabelo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

tão antigo quanto um sorriso
tão antigo quanto dentes quebrados
tão antigo quanto sangue pingando na terra
tão antigo quanto levar coice
tão antigo quanto empilhar pedras
tão antigo quanto fugir
tão antigo quanto roubar a carne da caça dos leões


nosso espanto e desespero.