segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

os méritos do cinismo

ridiculamente tímidos e prudentes, isto que somos.
quando aprenderemos novamente a cuspir
nos rostos dos proprietários da terra?

há uma virtude restauradora nos oceanos de saliva,
uma graça infinita na aventura enlouquecida da sinceridade.

contra a hipnose do infinito, contra os freios da hipocrisia
contra os bocejos da sabedoria de palestra.

escolhemos desfilar nossa solidão em praça pública,
desafiamos a claridade barriguda dos militares.

quem escuta as respostas do lodo para questões místicas?
quem escuta nossa zombaria e latidos enquanto compra
cervejas quentes feitas de milho transgênico por bolivianos cansados?

a tarefa do poeta é bater punheta para gozar na cara
dos doutrinadores da alma & do corpo, exibir
a completa amargura e lavar os ossos
de nossa condição despojada.

"quem me dera que bastasse também
esfregar a barriga para não ter mais fome",
disse o cão celestial depois de ejacular.

condomínio de enfermos, prisioneiros da certeza,
haverá uma chuva de equívocos e sairemos bêbados
carregados pelos pontapés do nojo que o tempo nutre
de nossa miséria, nossa farsa: um rosto repugnante
que insistimos em transformar em senhor das moscas.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria parado na frente de um rinoceronte
fumando um fininho californiano encontrado
entre sapatos abandonados e hare krishnas.

 não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria o dia inteiro enfiando álcool e gasolina
nos tanques de combustível dos carros currados
por motoristas sem imaginação, depois do polimento.

não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu ainda estaria trabalhando na televisão
ligando para delegacias à procura de prisões
e assassinatos interessantes para nossos abutres.

não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu permaneceria eternamente vendendo cópias
dos desenhos dos cavaleiros do zodíaco
para crianças cegas, anões e ninjas aposentados.
outra carta, fim de mundo
você moeu meu coração de vidro,
eu saí de campo,
estou velho

 e já te disse que tudo
que eu consegui no garimpo
foi um grampo
de cabelo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

tão antigo quanto um sorriso
tão antigo quanto dentes quebrados
tão antigo quanto sangue pingando na terra
tão antigo quanto levar coice
tão antigo quanto empilhar pedras
tão antigo quanto fugir
tão antigo quanto roubar a carne da caça dos leões


nosso espanto e desespero.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ainda estamos juntos

apesar de você praticar yoga com imigrantes vietnamitas
depois de molhar os pés nas águas do pacífico, enquanto
eu continuo catando moedas velhas nas areias sem fim
de uma praia fracassada lambida pelo atlântico -
tudo isso para entulhar a alma de ferrugem
e encher os bolsos com os avisos dos gansos.


apesar de você encontrar o táxi-chuvoso que te ilumina
e diz que todas las noches terminan en el malecón,
enquanto eu sigo enterrando chaves de fenda no fundo dos olhos
dos peixes abandonados debaixo da vaidade do sol, enquanto
eu permaneço escrevendo poemas para depósitos bancários,
poemas para trocar por lsd fajuto feito com listas telefônicas
e bastante cola branca, enquanto eu fico telefonando
para as alucinações, juntando as vísceras e os vícios
dos pardais devorados pelos banhos de soda cáustica.

apesar de você mergulhar com tubarões na polinésia
e descobrir as potências sexuais e curativas de moquecas
condimentadas com muito cravo, páprica e pimentas negras,
enquanto eu não paro de comer o pão que o diabo traz
de uma padaria tailandesa onde um anão viciado em pôquer
produz receitas tristes embalado por um tango lunático.

apesar de você amanhecer entre os dentes dos mímicos
desempregados da última turma da universidade de pequim,
enquanto eu anoiteço dentro da geladeira, ladeira abaixo,
enquanto eu anoto quase todas as frases que não me dizem
mas que eu escuto, enquanto eu estoco tristeza e feijão
debaixo das unhas - o suficiente para alimentar as canções
das baleias migrantes à procura de águas quentes.

ainda estamos juntos: somos vizinhos da enfermaria nº6.
ainda estamos juntos e jantamos os ossos da alegria e do tédio.
ainda estamos juntos e morreremos juntos e nossas juntas
serão colocadas na mesma caixa de ferro e lançadas ao mar.

 apesar de você saber assoviar, enquanto eu sei cuspir mais longe:
ainda estamos juntos e ficaremos bem velhinhos como ronnie & donnie.

grandelícia

as tristezas não sopram as retinas
cansadas da velha guerra
entre a febre
e o ouro.

à beira do abismo, uma sopa.
há uma cantoria dentro dos ossos,
há uma cantoria dentro dos nossos
dias mais esquisitos e espatifados
e espalhados pelo chão da cozinha.
na foda dos bonobos, na sinceridade
dos cinzeiros cheios de dentes,
nas bicicletas sorridentes e enferrujadas,
nas pilhas velhas, nas ilhas de cimento:
tédio, tesão
e um cheiro de caju impregnado no cu
das nove mil noites de cianureto.

sábado, 3 de janeiro de 2015

arte poética

incendiar noites e dias, a carne do mundo
lamber perambulando entre onças e pedras.
sorrir na companhia dos mendigos.

sujar as retinas, as botas, as beatas
foder. ao redor do umbigo,
cuspir.

amar a água, a égua, a águia e
comer os caminhos abertos da invisibilidade.
repartir as vísceras, próprias e alheias, entre chacais,
tanques de combustível e soluços.

voar no céu da boca, vadiar debaixo dos monturos.
perder os dentes, os dedos, poder povoar a solidão.

provocar brigas, dançar forró com garis nas madrugadas,
digerir didgeridoos, apaziguar as mortes azuis.
nascemos eu e minha morte
no azul do mesmo sopro:
pedra que o vento come,
terra cuspindo cada osso.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

poema desentranhado da fala de mestre laurentino

deus é uma banana:
nasce verde, fica amarela
e então fica boa.

a gente come.
ontem, universo
que anda na fumaça.

há peixes nos pés da manhã
ruminando rastros elétricos
do xaxado suave dos bois

irrupção do canto, aparição
dos ossos, pouso eterno
do navio nas lágrimas
do hidrante, urbe
que dorme no retorno
da amplidão: vento anônimo.

golpe de sorte, pulmão:
dois gomos de tangerina
apaixonados pelo ar.

o grande e o pequeno fiteiro do comerciante universal

vendemos um poema para cada janela
enquanto passeamos, vira-latas na via láctea,
com os olhos engolindo um pouco de luz
que escapa da fiscalização do trânsito celeste.

gigantes de pedra morreram asfixiados.
apesar disto, a erva cresce no final
do corredor. nossas dores escorrem
pelo caule da árvore, pingando por suas raízes
aéreas. esfinges fingem não roer as unhas
quando olham as ruínas da conciliação.

a pele dos prédios descama cotidianamente
e o sol retorcido das pixações faz carinho no lodo.
é possível recuperar a noite em suas entranhas,
mas comumente as mãos buscam o pão diário
para derrotar o silêncio. armadura que descansa
no colo do abismo, olho atento do lagarto, arma
que engole a frieza dos esquecidos, a moleza
das traças. refúgio da insensatez dos insetos,
peito sempre aberto nos ferros derretidos.

milagre que atravessa o século, trapo, língua lenta
da memória coberta de sal. sem pernas, viaja na carícia
desordenada e desatenta dos cadernos empoeirados.

suas penas congeladas guardam as distâncias percorridas
por fantasmas à procura de albergue. duzentos anões
adormecem debaixo dos seus cabelos. jaula ou garganta,
nenhum parentesco. arremessar os ombros contra os cantos,
amassar seus ossos de ferrugem, ele manso. guardião distraído,
silencioso, exceto quando vazio. é quando grita e derrete,
mesmo de pé. então as lesmas lambem o sangue
de seus segredos. e aranhas tratam de cobrir
sua ruína exposta ao sol.

canção de ninar n°3

então ouve a chuva cair,
ouve a chuva levantar.
lavar os ossos e partir
lá pras bandas do mar.

a chuva é um bicho tão bonito,
é quase um grito de um leão.
o chão molhado é infinito,
é o mito da barriga do grão.

Canção de ninar n°2

Lá fora a chuva cai
Lá fora a chuva cai
E eu estou aqui
E eu estou aqui
Nos braços do meu pai
Nos braços do meu pai

Eu ouço a água vem
Eu ouço a água vem
Lavar a minha alma
Lavar a minha alma
E a do meu bem
E a do meu bem

Com o tempo cresce a planta
Com o tempo cresce a planta
E o meu coração
E o meu coração
Se enche de luz e canta
Se enche de luz e canta.

canção de ninar nº 1

nós vamos de bicicletas
ou iremos de lambretas
vamos virar cambalhotas
pelas ruas, piruetas

tanta careta pra fazer
eu e você, eu e você

vicente vidente

um menino mágico,
vicente vidente: água,
água, água e amor
fluindo no ambiente
pelágico, pelado
e deitado ao meu lado
ainda sem dente.
o arranjo noturno deste grito
e a viagem lenta que manja:
o cheiro da casca da laranja,
a queda e o choro do infinito.
Irmão da poeira, beira da estrada.
Apesar do baque, mínimo breque.
Papo com o tempo, fome, trambique,
Golpe erótico contra o triste CHOQUE,
Energia de todas as peles no batuque.
arte é ponte,
sonho e cura.
parte de onte
m no peito, rua
escura lambida
pela luz da lua.
atenção sublime: ao
invés do mapa do
tesouro audição
da palavra do bes
ouro.
um jaguar perambula pela mente.
a consciência permeável se aquece
no sol e se esfria na noite de veludo verde.

grãos da sombra, grous que sobem
nos ombros do vento doido.

caminhar, quando caminhar.
sentar, quando sentar.

ouro e escuridão, a mudança
é um caminhão vazio e lento
catando desastres e gargalhadas.
cavalo do cão mijando
no caos dentro de si
para fazer nascer
uma bailarina estelar

diamantes no esterco,
papo vulgar,
popol vuh,
voilà!

as bananas
os macacos
galhos de fogo no alto
da árvore cósmica

a cena cômica, o vômito
do pássaro g i g a n t e
na cabeça do caniço pensante

frio e escuridão, baratas
num bar atômico, tempo nublado

cerveja, cervantes, outra cerveja
e o terremoto não lambe
nosso umbigo

o sol saberá o sabor
das carcaças
trazidas pela maré

cabeleiras de algas,
ossos e sangue.
a serviço
do viço
do ser

ontem totem amanhã

as bicicletas se perdem na noite,
a vida é eterna em vinte minutos.

a chuva aumenta a voz, reencontramos
as dúvidas e as vidas que desaparecem
no breu da fome a cada dez segundos.

há sabedoria na ira: a ventania levanta
uma comunidade em nossos peitos.

perambulamos em ambulâncias
cheios de nosso amor ambulante

entre o possível e a solidão.

slogan desviado

a grande dobra é
uivar com as pessoas

domingo, 20 de abril de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

cura & ri

a loucura
de lou reed

no clube do coelho azul

as garotas tocam hardcore
de topless, enquanto eu bebo
um pouco de cerveja mexicana.

o desaparecimento das vespas
e abelhas é uma coisa triste.

seguranças chineses fumam
cigarros do clã do dragão.

as rainhas das profundezas
usam enxadas para conversar
com minha mente derretida.

não perco o ônibus espacial
que atravessa a madrugada:
durmo nu, coberto de ossos.
MURDERnismo

sábado, 29 de março de 2014

O
egO
pregO
pregO
egO
O
AGORA TALVEZ AGORA AKIRA ACHE A CURA
AGORA TALVEZ A CHAVE A FENDA O FUNDO DA CHUVA
AKIRA A LAMA AGORA O LEMA DA ÁGUA O VIDRO
AGORA AKIRA TALVEZ AGRURA ADORA CABEÇA AGORA ESCURA

a dor chega. amanhece,
aconchega no peito a febre,
a lebre o livro de vento não fere
a fibra o rosto roto do resto dos dias.

sísifo, lavador de pratos

não há pedras para carregar
para o alto da montanha
todas as manhãs. apenas
uma pilha de louça suja,
uma bacia com água suja,
esponja cheia de bactérias.

não há coleira para prender
a morte junto ao poste da CELPE.
(dois cozinheiros já morreram
encostados nos fios desencapados)

sísifo lava as facas, as facas,
as facas e nunca leva a ideia adiante.
no intervalo acende um cigarro e observa
a gordura gordura gordura que entope o ralo.

lavar pratos não é trabalhar com limpeza.
apenas transferência, a imundície vai
de um lugar para outro. ouro é tolice
nos dentes do morto e na cozinha
assobios não escondem os guinchos dos ratos.

sísifo, lavador de pratos.
todas as manhãs
retorna.

não há sentido em lavar pratos,
levar nuvens no bolso.

o osso
compreende a vida ao máximo.

sísifo, se fu
deu.
uma voz do chão, sopro.
poros atentos aos movimentos
do ar. SANGUE & SONHO.

casa de parto das almas.
pernas e milagres da respiração.
útero, útero, útero: árvore
entre céu e terra.

mobilidade, luxo do fluxo
feliz da intuição. o sorriso
da mulher abre uma brecha
na realidade tagarela.

sem obra do homem,
sem manobra de kristeller.

deposição da criança no solo: somos
terra, pó, este nó incompreensível
com a poeira das estrelas.
o amor não está previsto em lei
o amor não está previsto
o amor não
o
: sabedoria :
sabre sobre
as sobras
das sombras
horrível tenebroso
simpático

patético infalível
carinhoso

agressivo suave
inábil

: sim : talvez : não

caranguejos com cérbero

eu vi o inferno e ele
começava aqui em
PERNAMBUCO.

segunda-feira, 17 de março de 2014

do verdinho, lógico.
anda logo, verdugo.

trago do cego
no cigarro
do mendigo.

corpo de fumaça
no tapete de veludo.
sombra
que é nossa
maravilha rara.

assombro no peito
de quem procura

encher a cara,
achar a cura.
laboratório
oratório
to orion.